Fusões e aquisições no mercado de transportes do Brasil

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Todos nós que atuamos no segmento do Transporte e da Logística materializada sabemos ou deveríamos saber que o fenômeno de “concentração da atividade” em nosso setor, que fará com que um reduzido número de empresas controle um grande percentual da geração de negócios em ambos os segmentos, é um processo internacional e imparável.

Quando cheguei à Espanha, no ano 1991, realizei um primeiro estudo para medir o grau de participação no mercado da empresa para a qual trabalhei durante mais de quatro lustros, tendo ocasião de estudar minuciosamente a atuação no mercado das organizações que compunham o TOP 50 das maiores e mais rentáveis empresas de Logística e de Transportes do país. Antes de escrever o presente artigo, quis revisar aquele documento, observando que 70% daquelas empresas, ou seja, 35 empresas de um total de 50, já não existem como tal; algumas desapareceram e a maioria foi adquirida ou fusionada por grupos internacionais ou nacionais.

A título de simples referência, algumas emblemáticas organizações do segmento, tanto nacionais como internacionais com grande presença na Espanha, foram absorvidas por outros grupos. Entre elas podemos destacar: Unitransa, Transfesa, Spain Tir, La Guipuzcoana, Excel Logistica, Azkar, Rapido O Minuto, Transcamer, Cave Transportes, Transportes Bilbainos, Transportes Gomez, etc. Outras empresas, tais como Transportes Labarta, Ochoa Transportes, Transerra e Express Cargo, cessaram sua atividade por diversos motivos.

Quando estudamos o nível de participação no mercado, utilizando o conceito de análise A, B, C, do total das empresas de logística e de transportes que compõem o ranking das 50 maiores empresas do segmento; na maioria dos países desenvolvidos, principalmente europeus e norte-americanos, geralmente encontramos uma situação que se aproxima à seguinte realidade:

NIVEL DE EMPRESA         % sobre total empresas       % sobre faturamento maiores
50 empresas do segmento

A                           Entre 10/20                           Entre 40/50

B                           Entre 30/40                           Entre 20/30

C                           Entre 40/60                          Entre 20/40

A leitura do quadro acima determina que um pequeno número de empresas controlará uma grande fatia do negócio gerado pelas 50 maiores empresas do segmento de L&T. Este fenômeno está intrinsicamente relacionado com o próprio conceito da globalização e é até certo ponto elementar. Os principais atores, que são as grandes organizações multinacionais e os principais grupos nacionais do setor, querem estar presentes em um país com o potencial do Brasil, não somente para controlar a atividade integral do processo de distribuição, mas também para participar da geração de negócios locais em um país cujo mercado conta com 200.000.000 de consumidores potenciais.
O conceito anteriormente existente, de dispor de representantes em países como Brasil, China, Índia, Rússia, e outros países com a economia em fase de expansão, vai sendo substituído pelo conceito de estabelecer uma filial própria nos respectivos países ou, em alguns casos, pela celebração de acordos bilaterais entre empresas que possam desenvolver alianças estratégicas.

Em alguns casos, a casa matriz conforma-se, inclusive, em não gerar lucro imediato no país elegido, como forma de ganhar massa crítica, aumentar o volume de operações nos países de origem e obter compensações fiscais iniciais no país no qual consolida os balanços e presta contas, em alguns casos, com reflexos diretos junto ao mercado de capital; normalmente através da cotização de valores nas bolsas de cidades como Nova York, Londres, Berlim, Paris, Tóquio, etc.

Considero bastante lógico o fato de que algumas organizações do segmento de Logística e de Transportes brasileiras estejam preocupadas em buscar alternativas, preparando a empresa para uma possível operação de fusão ou aquisição ou o estabelecimento de acordos de colaboração com empresas do setor. Porém, nossa experiência determina também que existe muita especulação no setor.

A decisão sobre o momento de deixar de atuar no setor de L&T é muito difícil de ser tomada, envolve aspectos sentimentais e emocionais e, infelizmente, algumas das organizações com as quais mantemos contatos atuam de forma bastante equivocada com relação a esta possibilidade.

A realização de um processo de F&A é uma atividade que não deve fazer com que o empresário se distraia. Meu conselho é que sempre procure preparar a empresa para ser vendida, o que supõe um processo que recomenda o apoio de empresas especializadas em realizar tais tarefas.

O empresário deve estar dedicado ao dia a dia do seu negócio, afrontando todas as vantagens e inconvenientes que supõe o desempenho deste árduo segmento. Se realmente quer abordar oportunidades através de uma operação de F&A, o melhor que deve fazer é planejar com cautela como afrontar este processo no qual a atividade de planejamento é fundamental. Caso contrário, salvo honrosas exceções, acabará enfrentando um grande desgaste junto ao mercado e ao próprio ambiente interno de sua empresa.

Minha equipe de colaboradores diretos e eu tivemos a oportunidade de realizar recentemente algumas viagens por países como Portugal, algumas das mais importantes províncias da Espanha, França e Itália. Dispomos de informações bastante contrastadas que dão conta de que vários grupos internacionais manifestaram interesse e necessidade estratégica de iniciar operações no Brasil.

Em minha recente viagem ao Brasil, mantive contatos com pelo menos oito empresários do setor, no seio dos debates que precederam o lançamento de nossa nova unidade de negócios; a Soma Log. Observei com muita claridade que pelo menos quatro empresas realizam movimentos meramente especulativos esperando que um grupo internacional caia do céu e queira comprar sua empresa. Lamentavelmente esta é a pura realidade… Com relação às demais empresas, estamos trabalhando no sentido de preparar os respectivos cadernos de venda, elemento básico e essencial para iniciar qualquer processo formal para abordar uma operação de F&A.

Nosso conselho é que quando o empresário estiver convencido que é chegada a oportunidade de abordar de forma séria e profissional esta questão, deveria assessorar-se de empresas especializadas, como é em nosso caso a Soma Log, realizando um trabalho de consultoria levado a cabo por profissionais que militam neste segmento há vários anos.

Eu tenho a honra de haver participado da primeira grande operação de F&A realizada no mercado brasileiro, no distante ano de 1972, quando meu tio avo, Sr. José Carneiro Gusmão de Lacerda, representando nossa sociedade familiar OTT – Organizaçao Total de Transportes, realizou um processo de associação com a Transportadora Pampa, criando uma nova empresa, Transpampa – OTT, que no ano 1973 foi adquirida pela então TNT LTD com sede em Sidney, Austrália.

Nos últimos 25 anos, participamos de forma direta ou indireta em mais de 30 processos envolvendo operações de compras, vendas, fusões, cisões, joint ventures e alianças estratégicas entre organizações nacionais e internacionais do segmento de logística e de transportes.

Portanto, os processos que agora começam a intensificar-se no Brasil chegam com uma década de atraso; mas não irão parar e se acentuarão em função de que o país é hoje uma grande potência econômica. Como parte integrante do processo macroeconômico, algumas empresas serão compradas, outras organizações levarão a cabo processos de fusão que bem conduzidos poderão fortalecer as empresas resultantes. Algumas empresas não terão outra alternativa que atuar como verdadeiros “operadores de operadores” e, lamentavelmente, outras desaparecerão.

Porém, o segmento de Transportes e de Logística seguira seu processo de dinamismo, as organizações que tenham um certo grau de especialização e cuidem com rigor da gestão dos seus custos e do aumento da produtividade de sua equipe e da regularidade no processo de prestação de serviços seguirão logrando ocupar uma posição, seja ela, A, B ou C, neste magnifico negócio que é a circulação da riqueza e a gestão da logística materializada.

Roberto Lacerda Oliva –
Diretor Geral das organizações PRESS LOG e SOMA LOG, ambas especializadas na área de Consultoria aplicada para os segmentos de logística e de transportes, e com presença no Brasil, Espanha e Portugal.